UNIVERSIDADE DO MINHO

 

 

Escola de Ciências

Departamento de Biologia

 

VIROLOGIA

2000/2001

 

TEMA DO SEMINÁRIOAGENTES INFECCIOSOS NÃO CONVENCIONAIS: PRIÕES

 

Autoria:

Bruno Abrantes

Gustavo Valdigem

Hugo Sarmento

Tiago Cruz

 

Licenciatura em Biologia Aplicada - 4º ano

Braga, 18 de Dezembro de 2000

 

Doenças Priónicas

Breve Descrição e Retrospectiva Histórica

A Descoberta Espantosa...

O Agente Infeccioso

Genética das EET

Mecanismos Moleculares

Breaking the barrier – Transmissibilidade dos priões

Avanços

testes de despistagem

Bilhetes de Identidade

Controlo da cadeia alimentar de humanos e de bovinos

Abate de animais

Inovações

Referências on-line:

Referências bibliográficas

 

 

Doenças Priónicas

 

Breve Descrição e Retrospectiva Histórica

 

As doenças priónicas (T.S.E. - Transmissible Spongiform Encephalopathies) constituem um grupo de patologias crónicas, progressivas, de ocorrência imprevisível, invariavelmente fatais, afectando principalmente o sistema nervoso central, sem resposta imune nem tratamento. Com um longo e imprevisível período de incubação, provocam alterações ou até disfunção cerebral, numa duração média entre 6 e 12 meses, no máximo de 24 meses. A grande característica neurológica comum encontrada é a vacuolização dos neurónios e da matéria cinzenta do cérebro, com perda celular, astrocistose e ausência de resposta inflamatória.

Neste grande grupo de patologias englobam-se várias formas da doença, consoante o grupo de mamíferos em causa: B.S.E. (Bovine Spongiform Encephalopathy), T.M.E. (Transmissible Mink Encephalopathy), F.S.E. (Feline Spongiform Encephalopathy), Wasting Disease of Deer, etc. Nos humanos existem quatro formas destas doenças: Kuru (uma doença extinta que afectou algumas tribos na Papua-Nova Guiné, relacionada com actos de canibalismo ou manipulação de cérebros humanos), Creutzfeldt-Jakob Disease (C.J.D.), Gerstmann-Straussler-Schinker Syndrome (G.S.S.) e Fatal Familiar Insomnia (F.F.I.). Existem, no entanto, casos esporádicos relatados de doenças similares em bovinos e felinos em jardins zoológicos.

Estas doenças infecciosas, aparentemente espontâneas, por vezes com predisposição herdada de pais para filhos,  por vezes adquiridas ao longo da vida, e com um agente infeccioso que não é susceptível a tratamentos que destroem ácidos nucleicos, e que persiste quase indefinidamente no ambiente, à primeira vista, e na perspectiva do público em geral, parece tratar-se de uma epidemia incontrolável, indestrutível, incurável e incompreensível...

Não se pretende aqui dar respostas, mas apenas expor conteúdos, factos científicos e políticos, que permitam uma discussão ampla, imparcial e distante dos factores socio-mediáticos gerados em volta desta matéria.

Fazendo um breve apanhado dos acontecimentos mais relevantes, e sobretudo na perspectiva do Prémio Nobel da Medicina Stanley Prusiner, fundador da teoria que hoje prevalece, podemos traçar o seguinte quadro cronológico:

1957: Vincent Zigas (Australian Public Health Service) e Carleton Gajdusek (U.S. National Institutes of Health) descrevem que algo estranho afectara alguns habitantes das montanhas de Papua Nova Guiné. A doença fatal, a qual foi chamada de Kuru ou laughing death, provocava ataxia e demência.

 

1970: Mudanças nos métodos de processamento de carcassas de ovelhas. Partes dessas carcassas passavam a fazer parte da dieta de outros animais sob a forma de suplemento nas rações.

 

1972: Stanley B. Prusiner (University of California, School of Medicine, San Francisco), na época médico neurologista num hospital em San Francisco, regista a morte de um paciente com CJD e revê a literatura científica sobre o assunto. Repara que, tanto na Kuru como na CJD, a doença era transmitida a outros animais por injecção de porções de cérebro doente em animais sadios.

 

1974: Stanley B. Prusiner inicia um trabalho de investigação no sentido de purificar o material infeccioso em cérebros infectados e determinar a sua composição. Na altura pensava tratar-se de um vírus de acção lenta, mas ainda ninguém tinha sido capaz de o isolar.

 

1982: Prusiner e a sua equipa conseguem isolar extractos de cérebro de ratinho consistindo quase exclusivamente em material infeccioso.

1984: Prusiner publica o artigo intitulado “Prions” na SCIENTIFIC AMERICAN.

1986: Gerald A. H. Wells e John W. Wilesmith (Central Veterinary Laboratory, England) detectam vários casos de bovinos com descoordenação motora e comportamentos anormalmente apreensivos.

1988: Atinge-se o pico epidémico e estabelece-se a relação destes factos com o uso de suplementos de origem animal. O governo britânico proíbe o uso de suplementos derivados de animais em rações.

1992: Pico máximo de n.º de casos de vacas infectadas na Grã-Bretanha, com 36 682 casos (em Portugal o pico verificou-se em 1999 com 170 casos).

1996: B.S.E. faz capa de jornais em todo o mundo com o anúncio do Spongiform Encephalopathy Advisor Committee in the United Kingdom que a explicação mais provável para 10 casos de CJD atípica em indivíduos jovens teria sido o contacto prévio com B.S.E. Instalava-se a crise na Europa...

 

A Descoberta Espantosa...

 

Neste capítulo tenta-se dar um enquadramento da formulação da teoria priónica de Prusiner, através da descrição da sequência dos acontecimentos, dificuldades e impasses inerentes ao processo de investigação.

No decorrer dos trabalhos, Prusiner e a sua equipa debateram-se com uma questão intrigante: Procedimentos que danificassem os ácidos nucleicos não diminuíam a infecciosidade. Pelo contrário, tratamentos em condições desnaturantes ou que danificassem proteínas, provocavam um abaixamento na infecciosidade.

Todos os resultados apontavam num sentido: o agente infeccioso, de facto, não continha ácidos nucleicos, e consistia maioritariamente, senão exclusivamente, em proteína. Aqui nasce o conceito de Prião (Prion - Proteinaceous infectious particles). Estes priões continham uma única proteína, a PrP (Prion protein).

Mas continuavam as questões... Onde residiam as instruções especificando a sequência de a.a. das PrP’s? Estariam codificadas em algum pedaço de DNA não detectado que acompanha as PrP, ou, por ventura, contidas num gene alojado nos cromossomas das células?

A chave do mistério foi a identificação de cerca de 15 a.a. numa das extremidades das proteínas PrP, que possibilitou construir sondas moleculares ou detectores que indicavam se as células dos mamíferos possuíam ou não o gene das PrP.

Entretanto, outros trabalhos permitiram isolar o gene em ratinhos e estabelecer que animais normais produziam esta proteína (PrP), mas não ficavam doentes. Isto leva-nos à conclusão que os trabalhos tinham sido em vão: As PrP não tem nada a ver com doenças priónicas. No entanto, existe uma outra possibilidade na interpretação destes factos: A PrP podia ser produzida em 2 formas: uma normal e outra anormal

A pista decisiva foi o facto de PrP encontrada em cérebros infectados serem resistentes às proteases. Assim, nasceram dois novos conceitos: Cellular PrP, sensível às proteases; e Scrapie PrP, resistente às proteases.

 

O Agente Infeccioso

 

A detecção de agentes causadores de EET’s, até há bem pouco tempo, só era possível por inoculação em animais susceptíveis, uma vez que, só agora começaram a aparecer sistemas in vitro.

Inicialmente considerados como vírus, estes agentes revelaram características que não eram comuns aos vírus: as infecções desenvolvem-se muito lentamente, os agentes são altamente resistentes a tratamentos que inactivam a maior parte dos vírus, e não se detectou a presença de ácidos nucleicos. Por outro lado, a existência de barreiras entre espécies e de estirpes são características partilhadas por agentes EET e por vírus convencionais.

 

Tabela I – Diferenças entre vírus e priões

 

Virus

Priões

Agentes filtráveis

Sim

Sim

Presença de ácidos nucleicos

Sim

Muito pouco

Morfologia definida por microscopia electrónica

Sim

Não

Presença de proteína

Sim

Sim

Desinfecção por:

Formaldeído

Proteases

Calor (80ºC)

Radiação UV e ionisante

 

Sim

Alguma

A maioria

Sim

 

Não

Não

Não

Não

Período de incubação

Depende

Longo

Resposta imune

Sim

Não

Resposta inflamatória

Sim

Não

Produção de interferão

Sim

Não

 

A hipótese dos agentes de EET’s serem constituídos exclusivamente por uma proteína replicativa, ou por uma proteína capaz de induzir uma alteração da proteína existente na célula surge com Griffith em 1967. Mais tarde foi popularizada por Prusiner, que designou estes agentes hipotéticos de priões.

A proteína identificada em preparações altamente purificadas de animais infectados com a scrappie, PrPsc , é uma proteína de 27-30 kDa, insolúvel em detergentes, resistente a proteolise por proteinase K, com forte tendência para agregar em placas similares ás “fibrilas associadas à scrapie” e detectadas em preparações de cérebros afectados observadas ao ME. A hibridização com sondas levou à identificação do gene que codifica para a proteína celular, designada de PrPc. A expressão do gene foi detectada por análise de Northern no tecido nervoso central e, também em níveis inferiores, no baço, pulmões e coração. PrPc  possui uma massa molecular de 33-35 kDa, é solúvel e completamente degradada por proteinase K. As duas proteínas são quimicamente idênticas e a diferença no peso molecular é um artefacto devido à clivagem parcial da PrPsc pela proteinase K durante o processo de purificação, apesar desta clivagem poder ocorrer in vivo. Ambas têm um péptido sinal, são glicosiladas em duas posições e são clivadas a cerca de 20 a. a. de distância da extremidade carboxílica, com a adição de glucisyl-fosfatidil-inositol.  PrPc está presente na membrana externa das células, enquanto PrPsc se acumula no citoplasma provavelmente nos lisossomas. Esta acumulação leva ao rebentamento das células formando-se buracos no cérebro típicos de doenças causadas por estes agentes. A degradação de PrPc leva cerca de 6 horas enquanto a sua semelhante mutante pode persistir alguns dias.

 

KURU

BSE

CJD

SCRAPIE

Figura 1 – Vacuolização do citoplasma neuronal resulta na aparência esponjosa típica do parênquima cerebral.

 

 

Figura 2 – Constituição da proteína e gene priónico

 

 

Os genes que codificam a proteína PrPc  (genes Prpn) no Homem estão codificados no braço mais curto do cromossoma XX. Os promotores não apresentam TATA boxes e contêm repeats GC similares aos locais de ligação do factor de transcrição Sp1. O gene contêm um primeiro exão separado do segundo por uma sequência de cerca de  10 Kb. Toda a sequência codificante está contida no segundo exão, o que pressupõe a possibilidade de PrPsc ser formada por splicing alternativo. Quatro ou cinco repetições de 8 codões aparecem na região 5’ dos genes. Todos os genes de mamíferos são altamente conservados, com percentagens de homologia de 80-90%. A função normal de PrPc não se conhece, suspeitando-se que actue na protecção  extracelular das células. Ratinhos knockout para os genes Prnp têm perturbações de sono e apresentam, degeneração das células de Purkinje.

 

Um número crescente de resultados experimentais vêm suportar a ideia de que PrPsc é o único, ou pelo menos é componente essencial da infecciosidade:

 

·        PrPsc e infecciosidade copurificam

·        PrPsc e infecciosidade têm o mesmo coeficiente de copartição em membranas, detergentes e liposomas

·        Hidrólise de PrPsc elimina infecciosidade

·        Existe correlação entre o grau de infecciosidade e a concentração de PrPsc 

·        Soro contendo anticorpos anti - PrPsc neutraliza infecciosidade

·        Ratinhos Knockout para genes Prnp apresentam resistência à scrapie

·        Sobrexpressão dos genes Prnp produz degeneração

·        Células de ratinho infectadas com scrapie produzem PrPsc e causam doença quando inoculadas noutros ratinhos

 

Genética das EET

 

Genes ligados com a susceptibilidade à scrapie foram identificados em carneiros e em ratos. Estes genes são idênticos aos genes da PrPc e a diferença nos períodos de incubação é devida à existência de polimorfismos.

Estes polimorfismos que afectam a susceptibilidade foram também encontrados no Homem (a. a. 129 e 2199). Ao contrário da maioria da população, que é heterozigótica (Met/Val) na posição 129, a maior parte dos pacientes com CJD esporádica ou iatrogénica são homozigóticos (Met/Met ou Val/Val). Todos os pacientes com a nova vCJD são homozigóticos (Met/Met). Dois polimorfismos da proteína bovina foram identificados mas nenhum parece estar associado com susceptibilidade à BSE.

As formas hereditárias da doença compreendem 25% de todos os casos de doenças priónicas, nomeadamente GSS, CJD familiar e FFI. Em cada uma das formas hereditadas, foram encontradas mutações na ORF do gene Prnp. 

Diferente da CJD esporádica e EETs animais, em que a sequência primária da PrPsc e idêntica à da PrPc normal, EET familiares humanas são causadas por mutações nos genes Prnp. Foram identificados 11 locais diferentes de mutação, assim como várias mutações por inserção de número diferente de repetições de octapéptidos. Os polimorfismos discutidos anteriormente podem codeterminar o padrão da doença, de modo que a mesma mutação cause diferentes doenças dependendo dos a. a. polimórficos presentes nos locais.

 

Figura 3 – Representação de locais de mutação no prião de ratinho.

 

Mecanismos Moleculares

 

As sequências primárias de PrPc e PrPsc são idênticas e não foi descoberta nenhuma modificação pós-translacional relacionada com a patogénese. A única diferença entre as duas proteínas diz respeito à estrutura secundária, uma vez que PrPc contém um elevado número de a - hélices, em quatro domínios diferentes, com poucas folhas b pragueadas. Por outro lado, PrPsc apresenta 43% de folhas b e apenas 30% de hélices a. As previsões da estrutura por computador são ambíguas, o que pode indicar que a proteína pode facilmente adoptar diferentes conformações.

 

Figura 4 – Representação da estrutura de PrPc e PrPsc. Mapeamento das hélices e regiões de mutação

 

Baseado nestes dados, Prusiner e o seu grupo propuseram um modelo de replicação para os agentes das EETs por conversão isomérica de PrPc, usando PrPsc como molde. PrPc é sintetizada e degradada com elevada taxa de turnover, como parte do metabolismo normal das células. Variações na estrutura tridimensional podem gerar uma variante anormal, PrP*, que é um intermediário reversível na formação de PrPsc. Interacções diméricas entre duas destas moléculas ou entre uma molécula de PrP* e uma molécula PrPsc exógena, leva à conversão na isoforma patogénica. Normalmente  a concentração de PrP* é muito baixa para causar esta mudança, mas ocasionalmente (com baixa frequência), PrP* atinge uma concentração limite, possibilitando o início do processo, depois da qual um feedback positivo leva à conversão e acumulação exponencial da PrPsc.

O passo inicial é altamente facilitado pela presença de uma PrPsc homóloga ou por PrPsc de outra espécie, desde que as duas possam interagir, ultrapassando assim a barreira da espécie. A acumulação de PrP* a níveis suficientes para a conversão é também facilitada por mutações na PrPc, originando os casos familiares da doença. Um papel adicional para uma proteína chaperone na conversão isomérica não está excluído por este modelo.

 

Figura 5 – Modelo da conversão dimérica.

 

Um modelo alternativo propõe que a patogénese de PrPsc depende da sua cristalização em fibrilas amilóides por um mecanismo de nucleação-polimerização. Uma forma parcialmente desdobrada de PrPc, correspondente a PrP*, tende a agregar-se lentamente e ineficientemente, até atingir uma concentração crítica, a partir da qual a polimerização é rápida. O equilíbrio inicial deste processo é afectado por mutações, e a polimerização é muito mais rápida e eficiente na presença de PrPsc exógeno. A fragmentação de polímeros recém  formados proporciona novas moléculas para a amplificação do processo.

 

Fig. 6 – Modelo da nucleação e polimerização

 

A conversão in vitro de PrPc para uma forma resistente à proteinase foi obtida por adição de um excesso de PrPsc parcialmente desnaturada, mas não pode ser conseguida sob condições próximas das naturais nem compatíveis com a interacção heterodimérica.

Ambos os modelos prevêem que em caso de transmissão entre espécies  a PrPsc produzida pertence à espécie “hospedeira”, sendo a sua sequência primária diferente da sequência da PrPsc infectante. Esta previsão foi confirmada usando ratinhos transgénicos expressando genes PrnP de hamster.

 

Breaking the barrier – Transmissibilidade dos priões

 

Em meados dos anos 80, surge a hipótese que algum fenómeno dificultava  o despoletar da doença num animal, por infecção de priões doutra espécie – designado por barreira da espécie. Num momento em que se observava uma epidemia de “vacas loucas” no Reino Unido, o interesse em resolver a questão da transmissibilidade intra e inter-espécie, era grande: seria a barreira suficientemente forte para prevenir a disseminação da doença dos priões das vacas para os humanos?

O fenómeno foi observado por Pattison que, nos anos 60, verificou ser difícil transmitir  Scrapie entre ovinos e rodentios. Para determinar a causa deste fenómeno, S. Prusiner e M. Scott, desenvolveram ratinhos transgénicos que expressavam o gene PrP de Hamsters sírios. O gene do ratinho, diferia em 16 codões nos 254 totais do hamster. Depois de inoculados com priões de hamster, os ratinhos normais, em geral, não adquiriram scrapie, enquanto que os ratinhos transgénicos ficaram doentes passados dois meses. Assim, por um lado quebrava-se a barreira da espécie e por outro, começava a ficar claro que a sequência aminoacídica determinava essa mesma barreira:

 

“Quanto mais semelhante for a sequência de aminoácidos do PrPSC com o PrPC, maior será a probabilidade de desenvolvimento da doença dos priões.”

 

Noutras experiências realizadas, Prusiner e colegas examinaram ratinhos transgénicos portadores do gene PrP de Hamsters sírios, em conjunto com o próprio gene PrP murino. O resultado, era a produção de priões normais de ambas espécies. Quando inoculados com priões de hamster, eles produziam priões de hamster, apontando para uma interacção preferêncial com as PrP celulares com maior homologia ou composição. É com base nestas premissas, que surge a hipótese de que a BSE tenha tido origem em contágios a partir de rações preparadas com tecidos de ovelhas com scrapie: os priões de bovinos e ovinos diferem apenas em sete posições. Consequentemente, a comparação da homologia dos priões humanos com os priões bovinos (com divergência em 30 posições), parecia indicar uma baixa transmissibilidade entre estas espécies. 

Bryan Mattews, da Universidade de Oxford, tendo por base esta possibilidade, referiu não encontrar ligação entre a scrapie nos ovinos e a ocorrência de Creutzfeldt-Jakob, em estudos epidemológicos realizados em regiões de criação de ovinos. Por outro lado, surge a informação da morte de dois criadores de gado com Creutzfeldt-Jakob, que possuiam vacas doentes. Estas mortes, foram encaradas com cepticismo quanto a uma possível correlação.

 

No entanto, daqui derivou a hipótese de algumas partes da molécula priónica conterem informação mais crucial para a quebra da barreira entre espécies[1] (1).

Até à identificação da nova variante de CJD, admitia-se que a transmissão da BSE a humanos era uma possibilidade remota. No entanto, esta afirmação não tinha nenhuma base científica de argumentação. Uma indicação indirecta de que não era possível ocorrer transmissão, foi dada por outras experiências em ratinhos transgénicos com genes humanos PrP e delectados nos genes murinos, os quais resistiram à infecção de BSE, durante o período experimental estipulado. Mais tarde, surgiu a informação que finalmente esses ratinhos ficaram doentes (1), levantando a possibilidade de transmissão de doenças priónicas de vacas ao Homem.

Os casos de BSE disparam em toda a Europa e a juntar a esses números, os caso de Creutzfeldt-Jakob. O governo britânico proíbe a utilização de farinhas de carne, assumindo a ligação da BSE e nvCDJ. Só no Reino Unido, verificaram-se 177 416 casos de vacas infectadas e 76 casos de vítimas nvCDJ. A partir 1996, sucedem-se os planos de vigilância e as séries de recomendações da União Europeia aos países de risco, no quais Portugal inclui-se em quarto lugar (ver tabela 1). A figura 1, apresenta a evolução da doença e as medidas tomadas em Portugal e na Europa, desde 1986 até agora.

 

Figura 7 – Evolução da  BSE em Portugal. Medidas e números até à actualidade.

 

Gráfico 1 – Distribuição acumulativa de idades da variante clássicaCJD

 

A nvCJD toma uma identidade própria em relação à variante clássica, por apresentar sintomatologia em indivíduos com idades inferiores a 60 anos (ver gráfico 1). A confirmarem-se as hipóteses de Prusiner e tendo em vista o longo período de incubação do prião, os casos de nvCJD poderão ascender nos próximos anos. Num mar de incertezas, é caso para dizer que o futuro dirá as leis.

 

Tabela II – Total de casos de vacas infectadas pela BSE, na Europa, até 2000

 

Grã-Bretanha

177 461

Irlanda do Norte

1 801

Irlanda

538

Portugal

458

Suíça

360

França

176

Bélgica

18

Alemanha

6

Dinamarca

2

 

Avanços

 

Olhando para o estado actual dos acontecimentos, de ligação directa à BSE, apenas podemos acusar a nova variante de Creutzfeldt-Jacob, com um registo de 85 casos no reino Unido e 3 em França.

A justificar esta ligação estão as propriedades registadas em ambas as formas, como sendo: as lesões cerebrais observadas, a evolução molecular da doença, as experiências realizadas com ratinhos e as suas características moleculares.

O facto de haver esta ligação, não implica que se saiba a forma ou via de contacto. Aliás isso permanece uma incógnita e poder-se-á mesmo dizer que muito pouco se sabe ainda sobre este assunto em geral, verificando-se que as mentiras de há uns anos atrás são agora verdades por exemplo e o que antes surgia como verdades são agora incertezas.

Os dados que foram surgindo, permitem avançar com a hipótese de que não foi o prião da scrapie (coceira dos caprinos) que mudou e infectou os bovinos, mas a própria proteína dos cérebros de alguns bovinos que sofreu alterações genéticas imprevisíveis.

Uma das hipóteses que surgiu diz-nos que o prião bovino recém-formado tem um elevado poder infectante e capacidade de se mover entre espécies. Isto indica uma predisposição genética na evolução da doença ou mesmo no poder infectante da proteína.

Neste momento estudos que prosseguem ainda não chegaram a uma conclusão devido a factores condicionantes como a complexidade da doença, o longo período de incubação e a variedade de hábitos alimentares das vítimas do prião.

A própria origem alimentar da doença é posta em causa surgindo a aplicação de medicamentos como outra possibilidade de grande relevância.

Do conjunto de medidas que hoje finalmente existem, destacam-se:

 

1.      Testes de despistagem

2.      Bilhetes de Identidade

3.      Bases de Dados – Serviço Nacional de Identificação e Registo de Bovinos

4.      Controlo da cadeia alimentar de humanos e de bovinos

5.      Abate de animais suspeitos e incineração das carcassas

6.      Abate de animais cohabitantes de animais positivos para a BSE

7.      Controlo apertado de medicamentos, transfusões sanguíneas, transplantes, etc.

 

testes de despistagem

 

Depois de um primeiro balanço da campanha de despistagem da BSE por toda a Europa, esta prepara-se para organizar os testes para os bovinos com mais de 30 meses que entram na cadeia alimentar. Estes testes rápidos utilizam amostras da espinal medula e de tecido cerebral para fazer uma confirmação post-mortem ao microscópio. Dos  testes que estão “em cima da mesa” 3 destes demonstraram através da avaliação da sua sensibilidade e especificidade, um excelente potencial para detectar e confirmar clinicamente a BSE

 

n               Teste A - anticorpos monoclonais num procedimento imunométrico (DELFIA)

n               Teste B - anticorpo monoclonal usado em western blotting para detectar o fragmento de PrPsc resistente às proteases

n               Teste C - ELISA com anticorpo policlonal anti PrP

n               Teste D - ensaio imunológico com 2 anticorpos monoclonais

 

Apesar da capacidade em detectar pequenas quantidades de PrPsc  capazes de uma infecção em grande escala nos deixar optimistas, a falta de informação sobre a progressão da doença em bovinos, nomeadamente no que diz respeito à relação entre o  grau de infecciosidade  e a concentração em PrPsc durante o período de incubação, não nos deixa chegar a conclusões definitivas neste momento.

Mas nem tudo é totalmente incerto quanto ao diagnóstico da vDCJ. Além dos estudos genéticos, existem 3 outras formas de detectar a presença do prião, em vida do doente, já disponíveis em Portugal: a ressonância magnética ao cérebro, o teste bioquímico à proteína 14-3-3 (mede os níveis de concentração desta substância no líquido encéfalo-raquidiano, mais elevado quando acontece a morte de neurónios) e a biópsia amigdalina. Esta última, cuja realização é possível em qualquer hospital central, permite detectar a doença numa fase precoce e assintomática, logo que o prião anormal penetra no nosso organismo. A entrada faz-se pelo aparelho digestivo, alojando-se em seguida no sistema nervoso periférico, de onde parte à conquista do cérebro, que invade e destrói.

Só nessa fase é possível através de uma punção lombar onde se retira uma porção de espinal medula, detectar a concentração anormal da proteína 14-3-3 no líquido encéfalo-raquidiano. Este é considerado um teste não específico, uma vez que a presença desta proteína revela sinais de inflamação e a BSE, como se sabe, não é uma inflamação.

 

Bilhetes de Identidade

 

As pessoas vão passar a saber que vaca estão a comer. Por força de um decreto-lei, cada pedaço de carne bovina será acompanhado pelos códigos de referência do animal a que pertence, identificação do fornecedor e do país de origem, número do controlo veterinário do matadouro, identificação do país de desmancha e número do controlo veterinário da sala de desmancha. A partir de Março, essa medida de rotulagem será ainda mais rigorosa, com a ligação à base de dados do Serviço Nacional de Identificação e Registo de Bovinos.

Passará a haver também um maior e melhor controlo dos nascimentos, deslocações e mortes dos bovinos no nosso país, assim como um controlo apertado nos produtos de origem animal que entram na cadeia alimentar humana.

 

Controlo da cadeia alimentar de humanos e de bovinos

 

Das medidas tomadas estas revestem-se de vital importância, uma vez que estão na base de qualquer combate à propagação da BSE. Assim foram retiradas da alimentação de ruminantes, toda e qualquer proteína de origem animal (farinhas “de carne e osso”). Foram também retiradas da cadeia de alimentação humana, uma série de porções do corpo de bovinos que poderiam ser infectantes e que foram classificadas consoante o seu risco de infecciosidade (tabela III).

 

Tabela III –  Potencial risco de transmissibilidade das TSE pelos tecidos de origem animal.

Infecciosidade

Órgãos

Alta

Cérebro, medula espinal e olho

Média

Gânglios linfático, cólon proximal, baço, amígdalas, dura mater, glândula pineal, placenta, líquido encefalo-raquidiano, pituitária e glândulas supra-renais

Baixa

Cólon distal, nervo ciático, mucosa nasal, medula óssea, fígado, timo, pulmões e pâncreas

Não detectável

Extracto de sangue, fezes, coração, rins, glândula mamária, leite, ovários, saliva, soro, músculo esquelético, tiróide, útero, bílis, osso, tecido cartilagíneo, tecido conjuntivo, pêlos, pele e urina

 

Abate de animais

 

Outra medida importante tomada foi a do abate de todos os animais suspeitos e confirmação laboratorial. A partir de certo momento também se passou a fazer o exame laboratorial a uma amostragem de animais abatidos nos circuitos normais. A acompanhar esta medida veio também o abate de todos os cohabitantes de animais positivos à BSE. Esta medida poderá ter sido exagerada, já que assustou a opinião pública, que ao ver milhares de animais a serem abatidos, julgou tratar-se de animais infectados.

Os animais abatidos têm como destino a incineração das suas carcaças, por métodos ainda não aplicados no nosso país, o que obriga a exportações dos restos mortais dos bovinos.

Existem assim 3 linhas orientadoras para minimização dos riscos de transmissão da BSE que assentam na escolha selectiva da origem dos animais, na origem do tecido e na segurança dos processos de extracção.

 

Controlo apertado de medicamentos, transfusões sanguíneas, transplantes, e outros

 

Também ao nível da indústria farmacêutica e da medicina foram implementadas medidas que visam a redução do risco de infecção. No passado, intervenções cirúrgicas  como transplantes de córnea infectados, uso de eléctrodos intracranianos contaminados, uso de hormonas de crescimento obtidas de hipófise de cadáveres humanos e transfusões de sangue contaminado foram veículos de contágio que causaram inúmeras mortes. Hoje estas práticas estão proibidas e destaca-se aqui o papel de Portugal como pioneiro ao retirar de todas as dádivas de sangue, os glóbulos brancos devido a notícias que surgiram dando conta de que o prião era transmissível por transfusões através dos glóbulos brancos.

 

Inovações

 

A compreensão da estrutura tridimensional da proteína PrP levará sem dúvida ao desenvolvimento de terapias. Se por exemplo o modelo de hélices proposto para a PrP estiver correcto, os investigadores poderão num futuro próximo desenvolver drogas que se ligarão ao centro activo da estrutura de quatro hélices. Esta ligação estabilizaria as hélices e poderia prevenir alterações na sua conformação evitando a conversão em folhas b.

Por outro lado se se confirmar que as proteínas PrP não são verdadeiramente essenciais, os cientistas poderão então um dia desenvolver e aplicar terapias com antigenes de modo a bloquear os genes que dão origem a proteínas indesejáveis.

Uma outra teoria sobre um possível tratamento seria modificar a acção da proteína X que se pensa funcionar como uma chaperone molecular.

 

Apesar de todos estes avanços sobre uma matéria que ainda tem muito mais para dar, existem ainda enigmas que permanecem sem resposta ao nível científico:

 

¨      A topologia da PrP na membrana celular

¨      Mecanismos da degeneração das células nervosas

¨      Criação de infecciosidade de novo

¨      Falhanço na criação de infecciosidade in vitro

 

Uma certeza emerge porém : se todas as medidas agora tomadas forem cumpridas escrupulosamente, considera-se bastante mais seguro comer carne de vaca agora do que há dez anos atrás...

 

Referências on-line:

·            http://chemestry.miningco.com

·            http://www.graphicnews.com

·            http://www.bse.org.uk/

·            http://www.airtime.co.uk/bse/

·            www.mad-cow.org

·             www.BSE\tsep8.html

 

Referências bibliográficas

§         Fontes; E.; Rodrigues. H.; Colóquio de actualização BSE e Doença de Creutzfeldt-Jakob; Ordem dos Médicos; Junho 1996

 

§         Masters, C.; “Story of an obsession”; Nature; vol.402; December 1999

 

§         Moynagh, J.; Schimmel, H.; “Tests for BSE evaluated; Nature; vol. 400; July 1999

 

§         Prusiner; S.;“The prions diseases”; Scientifican American;1995

 

§         Revista Visão; “Os pecados da carne”; nº 402



[1].  Prusiner e Telling criaram ratinhos transgénicos contendo genes PrP híbridos, contendo informação para PrP humanas flanqueadas em ambos os lados por codões de ratinho: o resultado foi uma proteína híbrida. Após a introdução de tecido cerebral de pacientes, que morreram da doença Creutzfeldt-Jakob ou da doença de Gerstmann-Sträussler-Scheinker, nos ratinhos transgénicos, verificaram que estes ratinhos contrairam a doença mais frequente e rapidamente que os ratinhos contendo o gene PrP humano integral. Estes resultados sugeriram que a região central do PrP poderia ser mais crítica do outros segmentos.